Minhas queridas Confreiras e queridos Confrades da AVSPE,
Eu brinco de economista, porque os economistas brasileiros viraram poetas. Brinco de jornalismo, porque (a maioria) dos jornalistas da minha terra viraram “empregados”. E o sacratíssimo “dever de imprensa” tem que se cumprir, nem que seja pelo sacrifício dos poetas.
Neste sábado (17) que antecede o natal e o ano novo, aproveito nosso espaço privilegiado para lhes enviar uma saudação em forma de um texto reflexivo, escrito assim, como eu diria? Digamos que a queima-roupa, em função do pouco tempo que disponho para diversas obrigações.
Muito se tem falado sobre prognósticos para o novo ano que se aproxima... em, especialmente, os nossos próceres políticos, que - julgando a condição de todos, a partir da própria realidade deles - alardeiam que a situação do Brasil é luminosa e prometedora. Houve até quem dissesse que o Brasil dispõe de reservas cambiais para salvar o EUA da crise que se meteu, devido principalmente, aos gastos pleonásticos com “despesas bélicas”.
Entretanto, os números que vejo, nas fontes confiáveis, são de outra monta e apontam para outros rumos. Neste particular, apesar de poeta, em se tratando de economia, por respeito aos trabalhadores e as famílias brasileiras, que parafraseando o gigante russo, León Tolstói: “moem o milho em cima do gume do machado”, prefiro ser um realista, buscando a informação confiável que, no caso, é o que nos interessa.
Hoje cedo, enquanto me adonava das atualidades na esfera política brasileira, li maravilhas de prognósticos a respeito das nossas reservas cambiais, coisa que, ao invés de me animar, deixou- me um tanto preocupado, movendo-me a escrever este documento para encerramento do exercício 2011 na AVSPE.
Ora, vejamos, a dívida pública brasileira, que engloba tanto o que o Brasil deve para outros países como os débitos no mercado interno, atingiu em novembro - segundo as fontes mais confiáveis - R$ 3,5 trilhões. Ora, esta cifra estratosférica é proporcional à dívida pública da Itália que, segundo consta, está em maus lençóis. Por que, então, com o mesmo déficit italiano, o Brasil estaria descansando em berço esplêndido, imune a crise internacional?
Para refletirmos mais a respeito dos objetos de estudo que aqui nos interessam: “os sorrisos otimistas e injustificada ufania presentes nas entrevistas cedidas pelo Palácio do Planalto”, vamos estudar mais um dado:
O Projeto de Lei Orçamentária (PLO) de 2011, votado pelo Congresso Nacional e levado ao Ministério da Saúde, prevê um orçamento de R$ 70,9 bilhões para gastos na saúde nacional em 2012. Entretanto, se observarmos os JUROS PAGOS da dívida pública brasileira nos últimos 12 meses - dinheiro que o governo pega emprestado de “investidores” para honrar compromissos e devolver com correção (que pode ser definida com antecedência no caso dos títulos prefixados) - veremos que o Brasil fechará 2011 pagando cerca de R$ 240 bilhões, apenas com juros, segundo o IMPOSTÔMETRO DA FIESP. Vide:
Vamos ver se conseguimos simplificar a equação supracitada: nosso país pretende destinar cerca de R$ 70 bilhões para a saúde brasileira em 2012, mas gastou R$ 240 bilhões, apenas com juros em 2011, isto, sem passar um esparadrapo com mercúrio na ferida de brasileiro nenhum. Equação resolvida.
Eu faço estas ponderações porque sou professor, por vocação, por sede de saber e vontade de servir ao meu País, em suas fronteiras e lá fora. E ai do Brasil se não fora a minha classe, que ensina - apesar do salário - o mínimo de VALORES a um número cada vez mais descontrolado e estratosférico de crianças que - em muitos casos - não têm nenhuma referência familiar ou senso de pertinência a nação. Parece-nos paradoxal quando os políticos alardeiam que o Brasil é um país ordeiro, mas não agradecem aos professores por isto, porque se não fora - nas últimas duas décadas - o labor dos professores, eu não quero sequer imaginar como estaria esta questão da ordem e violência no Brasil.
Chegando a esta altura da nossa prosa - a título de ilustração - quero reportar-me a uma entrevista concedida por Romário ao jornalista Cosme Rimoli da TV Record. Na oportunidade, o deputado e ex-futebolista brasileiro deu as seguintes declarações bombásticas:
“Não há interesse de que a população brasileira deixe de ser ignorante. Há quem se beneficie disso”.
[...]
“Os gastos previstos para o Pan do Rio eram de, no máximo, R$ 400 milhões. Foram gastos R$ 3,5 bilhões. Vou dar um testemunho que nunca dei. Comprei alguns apartamentos na Vila Panamericana do Rio como investimento. A melhor coisa que fiz foi vender esses apartamentos rapidamente. Sabe por quê? A Vila do Pan foi construída em cima de um pântano. Está afundando. O Velódromo caríssimo está abandonado. Assim como o Complexo Aquático Maria Lenk... É um escândalo! Uma vergonha! Todos fingem não enxergar. Alguém ganhou muito dinheiro com o Panamericano do Rio. A ignorância da população é que deixa essa gente safada sossegada”.
[...]
“A presidente Dilma havia afirmado quando assumiu que a Copa do Brasil de 2014 custaria R$ 42 bilhões. Já está em R$ 72 bilhões. E ninguém sabe onde os gastos vão parar. Ninguém. Com exceção de São Paulo, Rio, Minas, Rio Grande do Sul e olhe lá...Pernambuco... Todas as outras sete arenas não terão o uso constante. E não havia nem a necessidade de serem construídas. Eu vi onze das doze... Estive em onze sedes da Copa e posso afirmar sem medo. Tem muita coisa errada. E de propósito para beneficiar poucas pessoas”.
[...]
“A FIFA vai lucrar de R$ 3 a R$ 4 bilhões e não vai colocar um tostão no Brasil. É revoltante. Deveria dar apenas 10% para ajudar na Educação. Iria fazer um bem absurdo ao Brasil”.
Finalmente, meus queridos Confrades, quero aqui lhes parabenizar pelo glorioso labor poético em 2011. Trabalho poético que justifica e existência da nossa AVSPE, sobre os cuidados da nossa laboriosa Diretoria e reconhecida dedicação da nossa Presidente, a Embaixadora Efigênia Coutinho, que deste Balneário Camboriú, o próspero município catarinense, faz desta Academia este espaço privilegiado das letras, muito justamente reconhecido pela comunidade literária lusófona nacional e internacional.
Este que se alimenta da palavra e pede forças a Deus em 2012, para fazer o que deve ser feito e dizer o que deve ser dito, em letra confiável, despede-se, muito afetuosamente,
Vosso Confrade e Membro Efetivo,
Renã Leite Pontes
Do transmontano estado do Acre - Amazônia Brasileira